18.10.05

Transposição = Transfusão?

Com uma extensão de 2.700 km, o rio São Francisco, ou carinhosamente Velho Chico, é o maior rio genuinamente brasileiro. O rio tem 168 afluentes (99 perenes), suas médias pluviométricas variam de 1.900 milímetros anuais em sua nascente a 350 milímetros no semi-árido nordestino. Por causa desses números gigantescos, desde o Brasil Império até hoje, discute-se a transposição de suas águas, e o governo atual decidiu por em prática a idéia.

Vendem o projeto dessa transposição como um milagre que salvará o nordeste, trazendo riqueza e prosperidade. Luiz Inácio Lula da Silva diz que este projeto “é uma questão humanitária” pois vai “garantir que o povo nordestino, que tem outros problemas, não tenha o de água para beber”.

Tenho algumas objeções. Primeiro: o rio São Francisco é o principal produtor de energia do Nordeste, e todas as suas hidrelétricas estão operando em capacidades ideais para o abastecimento da região. Levando-se em conta que o consumo de energia cresce anualmente e que em 2001 mesmo sem a transposição o rio não conseguiu suprir a demanda energética, causando o racionamento, quem garante que não haverá novos riscos de “apagão”?

Segundo: em Traipu-AL, que fica a poucos quilômetros do rio, centenas de pessoas morrem de sede, não, eu não errei é sede mesmo. Outro exemplo, talvez mais prático: Petrolina, cidade famosa por ser umas das maiores produtoras, e exportadoras, de alimentos, é a cidade no Brasil onde mais se morre de fome. Aí eu pergunto ao Sr. Presidente da República o que é mais humanitário: gastar 4,5 bilhões de dólares em um canal ou resolvendo o problema dessas pessoas?

Terceiro: o Velho Chico tem hoje 5% de suas matas ciliares. A média de evaporação de suas águas, já como conseqüência desse desmatamento criminoso, é de 500 milímetros por ano em sua nascentes a 2200 milímetros no semi-árido. Fazendo as contas direito, o rio já sofre um déficit hídrico. Uma prova disso é que o antes o rio avançava quilômetros oceano a dentro, hoje a água salgada invade quilômetros do leito do rio.

Levando em contas as objeções, a transposição será metaforicamente como retirar o sangue de um velho, anêmico e desnutrido com a desculpa de que este sangue será mais útil em outro. Mas quem seria beneficiado com um sangue escasso como esse? Não creio que seja humanitário retirar parte das hemácias do velho Chico.

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