24.8.09

O Berço dos Coronéis


Ainda hoje o Cariri Cearense, é considerando um oásis no meio do sertão nordestino. Imagine quão rica era a biodiversidade nos tempos em que os primeiros frades fundaram a Missão do Miranda? Neste cenário, os colonizadores acharam condições propícias para o cultivo de cana-de-açúcar. Os engenhos de rapadura, bem como a criação de gado foram então as bases do desenvolvimento econômico da região, mas isso é cena dos próximos episódios.

Importante, porém, é constatar que por estes motivos, eram os senhores de engenho e criadores de gado os mandatários políticos do sul do Ceará naqueles tempos. Eram verdadeiros Barões da época feudal europeia. Homens geralmente de pouca instrução e adeptos ferrenhos dos costumes patriarcais da época.

A Igreja Católica sempre guardou sua reserva de poder. Quando não eram os próprios padres que detinham o poder econômico e político, sempre havia nas fazendas capelas e igrejas.

Não eram raros conflitos entre os detentores do poder. Assassinatos, roubos, pilhagens eram na verdade muito comuns em nossa região. Por isso, desde cedo uma voz falava mais alto que as outras no Cariri: “o Bacamarte”. Desde cedo, os nossos senhores feudais recorreram aos “cabras bons” para manter ou expandir os seus domínios. Isso é a base de um grande sentimento partidarista que dura até hoje. Delegados, promotores e juízes sempre foram coagidos pelos poderosos a aplicar a máxima “aos meus inimigos a lei, aos meus amigos a cumplicidade”.

Neste sentido interessante conhecer o relato de Gardner feito em 1838:

Os habitantes desta parte da província, geralmente conhecidos pelo cognome cariris, são famigerados no país por sua rebeldia às leis. Aqui foi e até certo ponto ainda é, embora em menor extensão, um esconderijo de assassinos e vagabundos de toda a espécie, vindos de todos os cantos do país. Embora haja um juiz de paz, um juiz de direito e outros representantes da lei, seu poder é muito limitado e, ainda assim, quando o exercem, correm o risco de tombar sob a faca do assassino.

Como já foi afirmado, esse banditismo era acoitado pelos mandatários políticos daqueles tempos. Neste sentido, vale a pena ver este trecho do Jornal "O Araripe" de 23 de fevereiro de 1960:

Aqui, um bando de salteadores, cobertos de armas veio fazer-se árbitro da vida e da fortuna dos cidadãos, ensangüentou a terra com bárbaras hecatombes humanas, levou o terror ao coração do mais resoluto; mas esses bárbaros não eram dos nossos. Nós éramos antes as primeiras vítimas votadas ao seu favor, e eles, os terríveis – Serenos – os apaniguados da polícia, que mimoseavam os senhores do dia, compareciam armados às orgias das autoridades, e pousavam os lábios impuros na mesma taça em que, entre brincos e alegrias, eles sorviam a cachaça, a grandes tragos! E quando eram um dia perseguidos por um militar valente e resoluto, que não podia curvar-se à imoralidade em triunfo, era da casa do chefe do partido saquarema que os bandidos saíam para as masmorras; eram o chefe dessa polícia quem se constituía o seu patrono, o seu amigo, o seu desvelado benfeitor.

Dentre muitos cangaceiros que exerciam o verdadeiro poder militar na região, alguns deles tornaram-se celebridades, entre eles podemos apontar: Gato Brabo, Jesuíno Brilhante (xilografura ao lado), Inocêncio Vermelho, Zuza Ataíde. Além de grupos como os Serenos e Xios (que agiam no Crato), os Viriatos, Meireles e Calangros (de Missão Velha).

Vale lembrar, ainda, não como desculpa, mas como constatação, que, em tal realidade, era praticamente impossível manter-se no poder sem formar seu próprio exército de cangaceiros. Logo, ser coiteiro, não era opção. Mandava quem tinha a melhor armada de “cabras bons”. E aqui cabe o dito popular que a diferença entre “Cabras” e “cobras” era só o “o”.

No período da Monarquia, com a divisão dos Senhores de engenho entre os partidos Liberal e Conservador, as disputas locais foram ainda mais acirradas, e o Cariri foi palco de verdadeiras guerras civis. Com exemplo o malogrado movimento que aconteceu no Crato em 1842 para derrubar do poder José Joaquim Coelho, por líderes oposicionistas. O movimento falhou por falta de recursos dos rebeldes.

Outro exemplo está bem claro nas palavras de Joaryavar Macedo:

Grande agitação reinou na região, dos fins de 1831 ao decorrer de 1832, quando se desenvolvera a guerra civil absolutistas, chefiada por Joaquim Pinto Madeira e mentoreada pelo vigário de Jardim, cônego Antônio Manuel de Sousa. As diversas escaramuças cruentas, entre os rebeldes e as forças legalistas trouxeram todo o vale em polvorosa, abrindo sulcos profundos no seio da coletividade caririense.

Toda esta agitação serviu de matéria prima para, com o advento da República, se consolidarem no poder os Coronéis, novo nome atribuído aos velhos senhores de engenho.

Bibliografia
* MACEDO, Joaryvar. Império do Bacamarte: uma abordagem sobre o Coronelismo no Cariri. 2 ed. Fortaleza: UFC, 1990.

Willian II

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